O trânsito paulistano mata mais que uma guerra. Vietnam, Coréia, Ruanda, Iugoslávia, Kuwait, Iraque… Afeganistao? Estamos muito à frente. Apesar de muito menos mortífera, a confusao daqui em muito lembra a nossa. Pela Europa, a fama é de ser disparado o mais caótico. Na Alemanha é até motivo de piada. E a primeira ironia vem logo do dicionário: “tráfego” e “tráfico”, em italiano, sao designados pela mesma palavra. “Traffico”.
Logo, estar a pé em Roma nao é mal negócio. Trens, tróleis, metrôs e ônibus cortam a cidade inteira. Opçoes nao faltam, nem mesmo na madrugada. Por aqui, há as chamadas linhas noturnas, com frequência de meia hora. Entre quinta e sábado, 15 minutos. Aos turistas, tudo.
O bilhete custa um euro e vale para todos os transportes. Ônibus ninguém paga, pois nao há cobrador nem catraca, mas uma máquina de validaçao eletrônica. Somente forasteiros desavisados se dao ao trabalho. Entretanto, há sempre o risco de encontrar os fiscais. O lema vigente é viver perigosamente. Se te pegarem na malandragem, multa de 50 euros no ato. Nao tem dinheiro? Tudo bem, por favor seu documento e a conta chegará bonitinha em casa. Nao tem endereço residencial? Delegacia. Se for estrangeiro, canseira. Ilegal? Xi amigo, deportaçao. Medo e delírio.
Mas viajar faz bem. Cá estou aplicando minha doce vingança de pedestre. Por duas décadas sonhei ser respeitado no trânsito. Hoje as faixas me deixam tarado. Nao posso ver uma e tenho vontade de atravessar. Aqui, você pisa na rua e os carros sao obrigados a parar, nao importa a velocidade. As indenizaçoes por atropelamento sao capazes de mudar um cidadao de classe social.
Delicie-se com a expressao dos motoristas. Um misto de cólera e frustraçao. Pense nos insultos do Capitao Haddock (aliás, o italiano é o povo que mais xinga e blasfema em todo o mundo, mas essa fica pra depois). Minha corrente sanguínea invadida por serotonina. Venci.
Roma é também a cidade dos motorinos – as nossas lambretas, vespas e mobiletes. Apenas na Itália sao mais de 30 fábricas dessas motinhos. Com mil euros você leva uma. Por causa do preço acessível, é um meio de transporte bastante popular. Principalmente entre os jovens – homens e mulheres. Em uma cidade cheia de vielas e mirantes, significa praticidade. No trânsito caótico, agilidade. O duro é pilotar uma dessas no inverno!
Quando moleque fazia coleçao de QuatroRodas, na base do pai-trocínio. Naturalmente, nutria a ilusao de encontrar no trânsito italiano um Salao do Automóvel em movimento. Ferraris, Maseratis, Lamborghinis e Bugattis, máquinas esportivas rugindo gás carbônico no semáforo da esquina. Ledo engano. Em cinco meses, o único cavalinho rampante que vi estava comportado. Encalhado em uma loja de seminovos.
A distribuiçao de automóveis por aqui é a seguinte: 40% de modelos populares, 30% de peruas e 30% de Smarts. Esses últimos sao aqueles micro-carros de dois lugares, cubinhos de rodas que cabem em qualquer vaga 2x1m. Pois bem, os Smarts sao alvo de ao menos 75% das buzinadas no trânsito romano.
O motivo é unânime. Os orgulhosos proprietários do carrelho assumem que, por estarem em viaturas minúsculas, podem se comportar como motociclistas. E a lambança é generalizada – fechadas cinematográficas, cruzamentos bloqueados, balizas impossíveis. A tensao está no ar. Para piorar, em inglês Smart quer dizer “esperto”.
Antipatia é contagiosa. A sinfonia de buzinas por aqui começa logo cedo e acorda quem ainda quer dormir. Na segunda semana, este insône narrador já recitava o mantra romano: “malditos Smarts, malditos Smarts, malditos Smarts…”.
Certos cidadaos resolvem tomar atitudes drásticas. Alguns anos faz, um morador de Roma partiu para o extremismo. Na calada da noite, ateava fogo nos Smarts estacionados na rua. Um neo-luddite. Em tempo recorde atingiu o estrelato. Demorou dois meses pra ser preso e, em boa parte por causa desse ato de heroísmo cívico, diversas ruas da cidade ganharam câmeras de vigilância.
E acabou com a alegria da molecada que gostava de tostar um na rua.